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Chiccas convida

Em entrevista à Chiccas, Marcelle Xavier é designer de conexões e iniciadora do Instituto Amuta fala sobre solidão feminina e como ela pode atravessar relações, inclusive no âmbito profissional;

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Marcelle Xavier

Quando falamos de solidão feminina, não estamos falando apenas de falta de companhia, correto? Como você percebe e explica esse fenômeno e como os papéis de gênero influenciam a experiência da solidão? 

Muitas pessoas associam a solidão a estar isolada fisicamente de outras pessoas. Mas isolamento social e solidão são coisas bem diferentes. O isolamento social é definido pela ausência objetiva de relacionamentos ou interações com outras pessoas. É um conceito quantificável e normalmente implica um limiar abaixo do qual as conexões sociais de uma pessoa são consideradas “adequadas”. Mas segundo a OMS, a própria necessidade de um limiar e a determinação desse limiar são questões em debate. Até porque esse número ideal de conexões e de contato social provavelmente varia ao longo da vida, de acordo com a cultura, com o modo de interação (por exemplo, presencial ou online), com a personalidade e com os níveis de habilidade social. 

 

Já a solidão é um sentimento subjetivo que indica uma falta - quando nos sentimos sozinhas é porque não temos as conexões que precisamos. A solidão brota de uma insatisfação com o estado atual da sua vida social, mesmo que a um nível inconsciente, e sempre vem acompanhada de uma emoção desagradável. Pode ser uma sensação de desamparo, de abandono, exclusão, raiva, tristeza, culpa, vulnerabilidade... 

 

Uma vez que a solidão é um sentimento subjetivo, é profundamente influenciada pelas expectativas sociais que são criadas de acordo com a nossa cultura, nossa tradição e também nossa identidade de gênero. Isso significa que uma pessoa pode se sentir mais sozinha que outra, mesmo tendo mais interações sociais ou mesmo mais interações com qualidade, simplesmente porque a sua expectativa de interação social, moldada a partir da sua cultura, é de maior sociabilidade.

Seria equivocado afirmar de maneira categórica que mulheres se sentem mais solitárias ou que homens se sentem mais sozinhos, mas a forma como a solidão é sentida com certeza se difere a partir das expectativas sociais que são criadas a partir da socialização de gênero. 

Segundo a pesquisadora Valeska Zanello, a construção de gênero é social, e acompanha performances e emocionalidades próprias, reforçadas por diferentes mecanismos. A forma como a gente se sente, assim como a maneira como a gente se comporta, é mediada pela nossa cultura.

Trata-se de uma pedagogia dos afetos, existe um roteiro sobre como devemos sentir e como devemos expressar nossas emoções, sendo que algumas emoções são mais permitidas e legitimadas para mulheres e outras para homens. Isso significa que a partir da nossa identidade de gênero e da socialização que a acompanha, aprendemos a sentir certas coisas e suprimir outras.

Valeska zanello sugere que na nossa sociedade “Tornar-se pessoa é acoplado com o tornar-se homem ou mulher, e portanto, implica em pedagogias afetivas (e performáticas) distintas".É por isso que a solidão vai ser percebida, compartilhada e sentida de maneira muito diferente entre homens e mulheres.

Como é a socialização feminina? As mulheres são socializadas para os relacionamentos.“Por meio do nosso processo de socialização, mulheres se tornam amorcentradas”, é o que afirma a pesquisadora Valeska Zanello, e ela diz:“O que está em xeque, é a identidade das mulheres. Para nós, o amor, ou essa forma de amor, é uma questão identitária”.

Se até mesmo a nossa construção de identidade depende de estarmos em relação, e nosso valor pessoal fica tão atrelado à capacidade de cultivar esses relacionamentos, faz sentido que enquanto mulheres a gente dependa mais das conexões, e tenha uma percepção mais acentuada da solidão.

Soma-se a isso o fato de que mulheres são mais abertas emocionalmente. É mais fácil para nós entrar em contato com as emoções, então é possível que mulheres tenham mais facilidade de perceber e compartilhar sobre a sua solidão.

Uma outra diferença da solidão feminina e masculina é as emoções que a acompanham. Enquanto a solidão masculina tende a se manifestar como violência contra o outro ou contra si, a solidão feminina pode vir acompanhada de culpa e vergonha. Quando os relacionamentos falham, a tendência das mulheres é se culpar porque aprendemos que o sucesso dos relacionamentos depende de nós. Se não temos relacionamentos, especialmente relacionamentos “românticos", é porque falhamos enquanto mulheres.

É por isso que as mulheres aprendem a se calar, a agradar, a abrir mão das suas necessidades e desejos em função do outro. Se nosso processo de socialização é amorcentrado, a tendência é se colocar à disposição do outro e esquecer de si dentro de um relacionamento. Isso também acentua a sensação de solidão feminina mesmo quando estamos em relação, pois esse desequilíbrio afeta a percepção de qualidade das conexões, que é uma das dimensões usadas para avaliar a sensação de solidão.

E como é a socialização masculina? Enquanto as mulheres são socializadas para conexão e cuidado, homens aprendem a priorizar a independência, a individualização, a autonomia e o estoicismo emocional. Eles NÃO são socializados para criar intimidade com seu mundo interno e com o outro, não aprendem a compartilhar sentimentos e a criar redes de apoio emocional.

Tornar-se homem de certo modo é o processo de embrutecer e se tornar mais egocentrado. Homens são criados para não depender de ninguém, para buscar autonomia, e para focar nas suas próprias necessidades e desejos. Um exemplo? O apaixonamento, que é justamente esse anseio mais profundo e arrebatador de estar em relação, é motivo de zoação porque enfraquece a sua masculinidade.

A maneira como homens são socializados estimula a solidão masculina, ao mesmo tempo que torna mais desafiador acessar de maneira objetiva um retrato da solidão dos homens já que é mais difícil para eles perceber a solidão, e ainda mais difícil compartilhar suas emoções e fazer algo para mudar essa condição.

Ou seja, a socialização, as expectativas sociais e a pedagogia dos afetos é muito diferente entre homens e mulheres, o que significa que ambos têm fatores de risco para a solidão, porém muito distintos entre si.

A busca por independência pode levar mulheres a se sentirem mais solitárias? Como diferenciar autonomia de isolamento?

A busca por independência não leva mulheres a se sentirem mais solitárias, pelo contrário, o que precisamos fazer aqui é uma distinção de independência de auto-suficiência. 

 

Na Teoria da Autodeterminação, a autonomia está relacionada à capacidade de fazer escolhas próprias, sentir-se autora da própria vida e agir de acordo com seus valores. Autonomia na realidade costuma estar presente em relações saudáveis, e pode coexistir com intimidade, pertencimento e interdependência. Há, inclusive, pesquisas associando o aumento de autonomia com a redução da percepção de solidão. 

 

Um outro ponto adicional aqui é que o aumento de autonomia é particularmente importante considerando que muitas mulheres permanecem em relações abusivas justamente pela falta de autonomia financeira ou emocional. Quando partimos desse entendimento de que solidão é muito mais amplo que estar isolada, e de que saúde social tem a ver com o quanto nossas relações são reguladoras e nutritivas, entendemos que permanecer em relacionamentos que não nos nutrem é muito pior do que estar sozinha. 

 

Quer um exemplo? Estamos acompanhando agora uma onda de mulheres se negando ao modelo de relação que está sendo proposto pelos homens. E isso não é algo necessariamente ruim. Quando as mulheres se negam a se relacionar com homens que não entregam o suficiente, estão também negando um dos principais dispositivos de subjetivação feminina que nos leva a associar até mesmo a nossa identidade e o nosso valor social à relações amorosas. Nesses casos, muitas mulheres estão reduzindo a energia que colocam para encontrar parceiros românticos que em muitos casos iriam prejudicar sua saúde social, e colocando mais energia em suas amizades. Esse é um exemplo no qual a busca por independência pode na realidade ser um fator de proteção da saúde social e não o contrário. 

O problema pode aparecer se a autonomia começar a ser confundida com auto-suficiência: não precisar pedir ajuda, não depender de ninguém, não demonstrar vulnerabilidade, não deixar que ninguém participe da sua vida. Aí podemos sair de uma posição de autonomia para uma posição de isolamento. Mas não acredito que a busca por independência feminina em si seja uma causa dessa busca de auto-suficiência. Na realidade a ideia de auto suficiência é um reflexo da nossa cultura, que é altamente patriarcal e pouco voltada para comunidades.

Se tratando de mercado de trabalho, como a experiência da solidão aparece na vida profissional das mulheres?

As pesquisas que encontrei não apontam que as mulheres necessariamente sejam mais solitárias no trabalho, mas faz sentido afirmar que podemos estar mais expostas a determinadas formas de isolamento produzidas pela própria estrutura de gênero das organizações.

 

Quando mulheres estão em cargos ou empresas que têm uma maioria masculina, é possível que as relações de solidariedade masculina e as relações e rituais informais, excluam mulheres, que acabam tendo menos acesso a informação, influência e oportunidades. 

 

Imagine uma mulher que chega a uma posição de diretoria ou C-level em uma empresa em que quase todos os outros executivos são homens. Ela conquistou um lugar de poder, mas pode simultaneamente entrar em um espaço de baixa similaridade social e não pertencimento, o que promove essa sensação de solidão. 

Porque refletir e criar estratégias para combater a  solidão pode beneficiar as mulheres?

A comissão de conexão social da OMS afirma que cuidar das nossas conexões não é apenas uma boa ideia, é uma questão de saúde. Hoje já temos dados o suficiente para provar que combater a solidão é combater o adoecimento físico e psíquico. 

 

Para mulheres pode ser particularmente importante construir uma comunidade de apoio, visto que uma rede forte é fundamental para enfrentar momentos de vulnerabilidade e relações de abuso e assédio. É preciso uma comunidade forte para prevenir o assédio e também para que mulheres consigam nomear, verbalizar e se cuidar quando o assédio acontece. Para as mulheres, cuidar da saúde social é também uma forma de ampliar a proteção.

A violência acontece e cresce no isolamento. Relações abusivas podem envolver justamente o enfraquecimento progressivo das redes da mulher: afastamento de amigas e familiares, controle dos seus contatos, desconfiança em relação às pessoas próximas e criação de uma dependência cada vez maior em relação ao parceiro. Por isso, ter uma rede social não é apenas ter companhia; é ter para onde ir, com quem conversar e quem possa ajudar a enxergar uma situação que, de dentro dela, pode ser difícil reconhecer.

Isso também vale para o ambiente profissional. O isolamento pode ser particularmente relevante em situações de assédio, principalmente quando existe uma relação de poder. Uma pesquisa sobre assédio sexual no trabalho encontrou que o isolamento social aparecia como um dos mecanismos relacionados à experiência de assédio em ambientes profissionais masculinizados. 

 

Prevenir violência não é apenas ensinar mulheres a identificar homens perigosos ou a se proteger individualmente. É também construir contextos em que elas não estejam isoladas.

Para finalizar, quais dicas você gostaria de deixar para as mulheres que têm se sentido sozinhas ultimamente?

A hipótese sustentada pelo Instituto Amuta é que a promoção da Saúde Social não começa necessariamente por ter mais relações ou mais tempo de convívio, mas por criar e sustentar relações nas quais conseguimos experimentar segurança suficiente para nos abrirmos à conexão.
 

Essa hipótese parte da premissa de que existe um ciclo de feedback positivo que acontece quando o sistema nervoso encontra segurança. Quando uma mulher constrói relações marcadas por previsibilidade, reciprocidade e consistência, aumenta a percepção de que aquela relação é segura, o que pode favorecer regulação e abertura para novas conexões.
 

Quando ela experimenta segurança em algumas relações, isso pode ampliar sua disponibilidade para comportamentos sociais — escutar, confiar, pedir ajuda, oferecer ajuda, comunicar necessidades e tolerar diferenças — inclusive em outras relações. Isso aumenta a chance de criar novos vínculos seguros e assim sustentar padrões relacionais que nutrem e não desgastam a saúde. 
 

Então a minha dica para uma mulher que está se sentindo sozinha é buscar aquelas relações ou espaços nos quais ela consegue relaxar e se sentir segura. Pode ser uma melhor amiga ou até mesmo criar uma comunidade centrada em apoio e sororidade, porque é fortalecendo essa segurança que ela vai conseguir construir mais relações saudáveis.

A reflexão continua!

na Chiccas, acreditamos que construir organizações mais equitativas passa pela escuta de diferentes perspectivas e pelo compromisso com mudanças estruturais. Agradecemos à Marcelle Xavier por compartilhar suas reflexões e contribuir para um debate essencial sobre solidão e o  papel social da mulher. 

até a próxima!

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