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Chiccas convida

Em entrevista à Chiccas, Vitória Régia Izaú, mulher ameafricana, mãe, professora da UEMG, palestrante, poetisa e escritora, fala sobre interseccionalidade, racismo institucional e o compromisso das organizações com a equidade.

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Vitória Régia Izaú

qual a importância de celebrarmos o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha?

Em primeiro lugar, é preciso pensar no que significa a frase icônica de Simone de Bouvoir “Não se nasce mulher, torna-se”. O que evidencia que a questão de gênero não é só biológica, mas sim social. Por isso é que inicio afirmando que precisamos pensar para além do binarismo, reconhecendo todas as mulheridades.

 

No tocante às mulheres negras, o dia 25 de julho – Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha foi estabelecido em 1992 como um dia de mobilização, pois se para mulheres não negras a equidade de gênero é pauta de lutas, imagine para as mulheres negras e todas as que não performam os padrões impostos pela sociedade? Em minha opinião este é um dia para celebração de nossa potência enquanto seres singulares, mas também coletivos, visto que a existência negra está longe de atingir patamares mínimos de respeito e civilidade no Brasil e no mundo.

Na sua perspectiva, qual a importância de levarmos estas reflexões também para o mercado de trabalho? Quais são os principais desafios que as mulheres negras ainda enfrentam nestes espaços e no acesso a posições de liderança?

Devido aos vários tipos de racismo, dentre eles o racismo institucional, muitas mulheres negras mesmo sendo extremamente qualificadas são violadas do direito ao crescimento institucional. Se são altivas e determinadas são taxadas de arrogantes, pois a sociedade naturaliza a visão preconceituosa de que devem ser silenciadas e ter uma postura subserviente. Isto ocorre devido ao legado escravista, que ainda vigora nas mentes de gestores que não são letrados racialmente e que defendem seus privilégios, incorporando o ethos do “pacto narcísico da branquitude”. Neste sentido, afirmo que estas reflexões são imprescindíveis para que o mercado de trabalho tenha critérios justos e objetivos, em políticas antirracistas e anti-discriminatórias.

Como uma perspectiva interseccional pode ajudar as organizações a avançarem nas pautas de diversidade?

A perspectiva interseccional, presente no pensamento de autoras como Carla Akotirene e outras, traz a contribuição de que há várias camadas de violação de direitos que são amalgamadas quando se é uma mulher negra. Isto significa que é inescapável não observarmos as opressões de classe, gênero e raça operando concomitantemente. Por esta razão, as organizações precisam fortalecer em suas políticas, a educação antirracista como princípio de educação em trabalho. Há que haver protocolos em casos de denúncia e medidas efetivas para coibir condutas violentas. Racismo é crime e não pode ser tolerado como mera liberdade de expressão.

Como as mulheres negras estão transformando a sociedade e o que as organizações têm a ganhar e a aprender com essas transformações?

Como afirma Angela Davis “Quando a mulher negra se movimenta, toda a sociedade se movimenta com ela”. Sou entusiasta desta afirmação pois quando uma mulher negra rompe com as injustas barreiras impostas pelo racismo e ascende socialmente, sua presença, inteligência e competência faz com que outras mulheres negras vejam seus processos com reais possibilidades. Desde a colonização, todas as organizações de mulheres negras contribuíram para a construção do país. Cito movimentos importantes como a UNEGRO (União dos Negros pela Liberdade), o MNU (Movimento Negro Unificado), Instituto Geledès e outros. Toda organização que faz parcerias com coletivos negros tem muito a aprender sobre a história que não foi contada oficialmente, abrindo-se um poderoso espaço para letramento racial e financiamento de projetos educativos, além de inventos e tecnologias ancestrais.

Que mensagem você deixaria para lideranças e organizações que desejam construir ambientes de trabalho mais inclusivos e equitativos para as mulheres negras?

Em 2026 ainda vê-se o quão tem sido vexatória a filosofia tradicional de empresas que não se atualizam quanto às legislações anti-discriminatórias no país. O impacto da escravização nas mentalidades de muitos gestores ainda obstaculizam políticas de equidade, propiciando climas organizacionais terríveis, violentos, com graves processos de assédio, racismo e outras violências. O adoecimento psíquico de mulheres negras no mercado de trabalho está fincado na história ultrapassada que não quis reconhecer a humanidade de cada uma delas. Portanto, defender ambientes mais inclusivos e equitativos tem que ser um compromisso político, econômico, social e educativo. Sendo o Brasil o país que teve o maior contingente negro africano que foi escravizado, este deve ser também o país onde a equidade seja coexistente com a Reparação Social.

A reflexão continua!

na Chiccas, acreditamos que construir organizações mais equitativas passa pela escuta de diferentes perspectivas e pelo compromisso com mudanças estruturais. Agradecemos à Vitória Régia Izaú por compartilhar suas reflexões e contribuir para um debate essencial sobre equidade racial, gênero e justiça social.

até a próxima!

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